Projeto de Pesquisa

Transferência de renda, pobreza e vulnerabilidade social em perspectiva interseccional


Projeto desenvolvido durante estágio pós-doutoral no exterior, realizado no Afro-Latin American Research Institute (ALARI) da Harvard University, por um período de doze meses (agosto de 2018 a julho de 2019), financiado pela Fulbright Commission, através de uma bolsa de Pesquisador Visitante (Visiting Scholar). A pesquisa objetiva explorar as potencialidades da perspectiva analítica da interseccionalidade (intersectionality) para os estudos sobre políticas sociais de combate à pobreza e à vulnerabilidade social, a partir da leitura e análise dos dados coletados durante pesquisa recém-concluída (financiada no âmbito da Chamada Universal– MCTI/CNPq Nº 14/2014) sobre a trajetória de vida de famílias beneficiárias do programa de transferência condicionada de renda Bolsa Família (PBF), realizada em uma comunidade pobre da periferia urbana da cidade de João Pessoa, capital do estado da Paraíba. Duas características básicas encontradas nos estudos que adotam a perspectiva da interseccionalidade tornam-se particularmente importantes para a leitura dos nossos dados: i) considera-se que grupos marginalizados raramente são homogêneos em um nível significativo. Ou seja, a interseccionalidade, como perspectiva analítica, é um tipo de posicionamento conceitual que considera a pluralidade e a heterogeneidade como constitutivas dos grupos sociais vulneráveis. Portanto, trata-se de uma perspectiva que questiona a homogeneidade das categorias sociais utilizadas para definir e caracterizar os grupos sociais; ii) Além disso, possibilita a análise multinível de formas múltiplas de desigualdades sociais. Ou seja, a análise interseccional concebe como interdependentes e mutuamente referidos os níveis individual, grupal e institucional (HANCOCK, 2007; MANUEL, 2007; SAATCIOGLU & CORUS, 2014). Exposições particulares a fatores geradores de vulnerabilidade social são analisados tanto em seus elementos idiossincráticos, quanto contextualmente compartilhados e/ou institucionalmente reforçado/condicionado. Os estudos interseccionais partem da ideia de que existem dimensões na condição de subordinação (cultural, econômica, social, política) que apenas podem ser reveladas quando considerados os efeitos combinados dessas condições. Do ponto de vista conceitual, a perspectiva interseccional de análise questiona ideias e concepções muito arraigadas nas práticas de pesquisa das Ciências Sociais. A tendência em analisar de maneira isolada as diversas formas de subordinação social acaba por ocultar os efeitos das formas cruzadas de exclusão e marginalização social, que só são percebidos quando concebidos como efeitos qualitativamente distintos daqueles que derivam de condições específicas quando tomadas isoladamente.  A perspectiva interseccional, portanto, parece apontar para um ganho analítico, em complexidade e profundidade, nas análises sobre formas múltiplas de desigualdade e exclusão.