Apresentação

O termo razão política tem sido empregado para indicar a existência de uma ratio específica da política, compreendida em duplo sentido: objetivamente, como maneira de pensar o exercício do poder; subjetivamente, como motivo para a ação. Ao longo da história das sociedades ocidentais, a razão política desempenhou um papel decisivo na prática governamental. Embora seu registro histórico possa remontar à Antiguidade Clássica, quando as reformas de Sólon retiraram as leis civis da ordem do mistério para instaurá-las no mundo da polis e do logos, foi a Modernidade, entretanto, que lhe reservou as maiores honras e os mais temíveis poderes. Incorporada na vontade do Soberano pelos teóricos da Razão de Estado, desencarnada nos poderes intelectuais das constituições liberais, em seguida corporificada no princípio do líder (Führertum, Duce, Generalíssimo etc.) dos regimes nazi-fascistas e ditatoriais, a razão política finalmente inscreveu-se no cálculo econômico das nossas democracias neoliberais. Sua função principal é estabelecer uma condição e um status optimus para o funcionamento do Estado.

Outro sentido opera no acontecimento. Não de simples oposição, mas o de incitamento perpétuo, na medida em que livra o agir, embora por um lapso, da razão, abrindo-lhe novos possíveis. O acontecimento opera por proliferação de fluxos: de desejos, de vontades, de afetos. Procede apenas por efetuação: encarna uma situação, um indivíduo, uma pessoa – eventum tantum, como definiu Deleuze. Entre as metáforas destinadas a figurá-lo, talvez as mais emblemáticas sejam a da fortuna em Maquiavel: sem saber-se onde, quando ou quem, ela arrasta consigo tudo à sua frente. E as tempestades em Bacon: no horizonte político o mau tempo acumula-se silenciosamente.

Ao menos na história das sociedades ocidentais, razão política e acontecimento aparecem como partes indissociáveis na dinâmica do político. Sem jamais se anularem mutuamente, formam o campo de forças constitutivas das relações de poder. Compreender seus movimentos, explicitar seus mecanismos, descrever sua inteligibilidade pode, portanto, contribuir para pôr a nu os contrassensos que atravessam o agir político.

O 2º Encontro Internacional de Estudos Foucaultianos convida para contribuições de diversos campos disciplinares que abordem em perspectiva crítica o tema razão política e acontecimento.