{"id":320,"date":"2025-07-03T17:13:55","date_gmt":"2025-07-03T20:13:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cchla.ufpb.br\/observatoriododiscurso\/?p=320"},"modified":"2025-08-19T12:00:28","modified_gmt":"2025-08-19T15:00:28","slug":"quem-tem-medo-da-fala-feminina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cchla.ufpb.br\/observatoriododiscurso\/noticias\/quem-tem-medo-da-fala-feminina\/","title":{"rendered":"Quem tem medo da fala feminina?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Amanda Braga | Carlos Piovezani<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Texto originalmente publicado em: <em><a href=\"https:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/genero\/quem-tem-medo-da-fala-feminina\/\">Observat\u00f3rio da imprensa<\/a><\/em>, ed. 1345, 03 jul 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recentemente, vimos Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, ser insistentemente silenciada. Ap\u00f3s sua fala ter sido v\u00e1rias vezes interrompida pelos senadores e seu microfone frequentemente cortado pelo senador Marcos Rog\u00e9rio (PL-RO), presidente da Comiss\u00e3o de Infraestrutura do Senado, Marina deixou a reuni\u00e3o da Comiss\u00e3o. Ao ouvir ainda que deveria \u201ccolocar-se em seu lugar\u201d, a ministra disse: \u201cVoc\u00ea queria que eu fosse uma mulher submissa e eu n\u00e3o sou\u201d. Por mais grave que seja esse epis\u00f3dio, \u00e9 apenas mais um exemplo do machismo e da misoginia onipresentes no cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro. Seu objetivo mais fundamental \u00e9 o silenciamento da fala feminina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde as tentativas de interdi\u00e7\u00e3o e do menosprezo pelo que dizem as mulheres, passando por viol\u00eancias f\u00edsicas e simb\u00f3licas, at\u00e9 os feminic\u00eddios, s\u00e3o v\u00e1rios os meios usados para alcan\u00e7ar esse fim. Primeiramente, tenta-se impedir que as mulheres ocupem os espa\u00e7os de fala; mas se elas ocupam, tenta-se impedir que elas efetivamente falem; mas se elas falam, ent\u00e3o tenta-se impedir a escuta de suas vozes; mas se elas forem ouvidas, tenta-se impedir que suas palavras sejam dignas de cr\u00e9dito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, se elas ocupam esses espa\u00e7os, falam, s\u00e3o ouvidas e t\u00eam suas falas abonadas, formas de silenciamento ainda mais radicais s\u00e3o acionadas. Nunca \u00e9 o bastante mencionar a atrocidade sofrida por Marielle Franco e, antes e depois dela, por outras mulheres que n\u00e3o se calaram diante de injusti\u00e7as.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"706\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/www.cchla.ufpb.br\/observatoriododiscurso\/wp-content\/uploads\/sites\/122\/sites\/328\/2025\/07\/PHOTO-2025-03-28-18-25-37-706x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-94\" style=\"width:189px;height:auto\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma longa hist\u00f3ria dessas tentativas de silenciamento da fala das mulheres. No livro <em><strong><a href=\"https:\/\/www.editorajandaira.com.br\/humanidades\/a-fala-feminina-silenciamentos-e-resistencias\">A fala feminina: silenciamentos e resist\u00eancias <\/a><\/strong><\/em>(Janda\u00edra, 2025), retra\u00e7amos essa longa hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m a da obstinada resist\u00eancia das mulheres a esse ancestral e ainda presente \u201ccala a boca\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vejamos aqui alguns exemplos. Um dos mais antigos registros desse silenciamento encontra-se numa passagem da Odisseia, de Homero. Conhecemos seu enredo: Ulisses est\u00e1 voltando da guerra de Troia, enquanto Pen\u00e9lope, sua esposa, est\u00e1 \u00e0 sua espera, tendo de lidar com muitos pretendentes, que ansiavam por ocupar a posi\u00e7\u00e3o de seu marido. Certo dia, Pen\u00e9lope deixa a parte mais reservada de sua casa e faz um pedido aos pretendentes, que estavam num p\u00e1tio externo. Enquanto ainda falava, ela foi prontamente interrompida por seu filho, Tel\u00eamaco, que lhe disse: \u201cAgora volta para os teus aposentos e presta aten\u00e7\u00e3o aos teus lavores, ao tear e \u00e0 roca; e ordena \u00e0s tuas servas que fa\u00e7am os seus trabalhos. Pois falar \u00e9 aos homens que compete, a mim sobretudo: sou eu quem manda nesta casa\u201d. Ora, a antiqu\u00edssima domina\u00e7\u00e3o masculina lhe interditava a fala, sustentando que somente os homens teriam compet\u00eancia para falar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 entre os medievais, o discurso crist\u00e3o era muito forte e o texto b\u00edblico uma palavra de ordem. No G\u00eanesis, Eva \u00e9 a primeira a falar no para\u00edso. Mas o que ela faz quando adquire o dom da linguagem? Ela convence Ad\u00e3o a pecar. \u00c9 da imprud\u00eancia desse gesto que decorrem, por castigo divino, n\u00e3o apenas as dores do parto e a submiss\u00e3o das mulheres a seus maridos, mas ainda nossa pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de pecadores: \u201cPorque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da \u00e1rvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa\u201d. Foi porque Ad\u00e3o ouviu a voz de Eva que os humanos foram amaldi\u00e7oados. Na g\u00eanese do mundo crist\u00e3o, a malefic\u00eancia da palavra feminina e a escuta que lhe deu cr\u00e9dito provocaram a condena\u00e7\u00e3o da humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na modernidade, ao lado das Luzes, surgiu uma terr\u00edvel m\u00e1quina do silenciamento. Era a chamada gossip bridle (r\u00e9dea de fofoca), que designava o instrumento usado para torturar, humilhar e silenciar mulheres supostamente tagarelas. Tamb\u00e9m conhecido como scold\u2019s bridle (r\u00e9dea das rabugentas), a engenhoca era utilizada muito frequentemente por solicita\u00e7\u00e3o dos maridos e se caracterizava por uma estrutura circular de ferro que envolvia toda a cabe\u00e7a da castigada. A tal estrutura, fixava-se uma chapa que se projetava para dentro da boca e acostava-se \u00e0 l\u00edngua das mulheres, que seriam feridas caso tentassem falar. A \u201cr\u00e9dea\u201d representava, no s\u00e9culo XVI, a tentativa de silenciamento da \u201cfofoca\u201d, das supostas palavras indiscretas e maldosas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como se v\u00ea, as coisas ditas v\u00e3o construindo pr\u00e1ticas e ideias que op\u00f5em a \u201cfala feminina\u201d \u00e0 fala dos homens. De um lado, estariam as alegadas virtudes masculinas da coragem e da prud\u00eancia, da franqueza e do interesse coletivo; de outro, os supostos v\u00edcios da incompet\u00eancia, dos perigos, dos excessos e das fofocas da fala das mulheres. Nada seria mais justo do que seu silenciamento. Essas e outras a\u00e7\u00f5es da antiga e muito atual domina\u00e7\u00e3o masculina ainda grassam na pol\u00edtica brasileira contempor\u00e2nea, na qual s\u00e3o incessantes as tentativas de interdi\u00e7\u00e3o, deprecia\u00e7\u00e3o e deslegitima\u00e7\u00e3o da fala feminina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes do recente silenciamento de Marina Silva, muitos outros ocorrem. A t\u00edtulo de mera ilustra\u00e7\u00e3o, podemos mencionar a condena\u00e7\u00e3o da \u201cinconveniente\u201d interven\u00e7\u00e3o de Janja num jantar com o presidente da China. Tamb\u00e9m recentemente, quando defendia a presen\u00e7a de mais mulheres na pol\u00edtica, a vereadora Camila Rosa (PSD), de Aparecida de Goi\u00e2nia (GO), teve seu microfone desligado por ordem do presidente da C\u00e2mara, o vereador Andr\u00e9 Fortaleza (MDB): \u201cCorta o microfone dessa vereadora para mim. Agora!\u201d. Poucos meses mais tarde, ao mencionar um caso de transfobia ocorrido durante uma sess\u00e3o da Assembleia Legislativa de S\u00e3o Paulo, a deputada estadual M\u00f4nica Seixas (PSOL) ouviria do deputado Wellington Moura (Republicanos), que presidia a sess\u00e3o: \u201cNo momento em que eu estiver ali, na Presid\u00eancia da sess\u00e3o, eu vou sempre colocar um cabresto na sua boca, porque n\u00e3o vou permitir que Vossa Excel\u00eancia perturbe a ordem dessa Assembleia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida alguma: quem tem medo da fala das mulheres \u00e9 a domina\u00e7\u00e3o masculina. Em raz\u00e3o dos silenciamentos que seu machismo e sua misoginia constantemente tentam impor \u00e0 fala feminina, as lutas pela palavra sempre foram e continuam a ser batalhas decisivas para as mulheres e para os movimentos feministas. Trata-se de uma luta pela pr\u00f3pria possibilidade de existir, social e politicamente: n\u00e3o poder falar nem ser ouvida, n\u00e3o ter legitimidade reconhecida em suas palavras nem ser digna de confian\u00e7a s\u00e3o usurpa\u00e7\u00f5es pr\u00f3pria de um processo de desumaniza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 por acaso que a chamada \u201cviol\u00eancia pol\u00edtica de g\u00eanero\u201d \u2013 cuja tipifica\u00e7\u00e3o criminal se deu em 2021, por meio da Lei 14.192 \u2013 se d\u00e1, muitas vezes, contra o exerc\u00edcio da fala p\u00fablica das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pleno direito de atuar na vida p\u00fablica, por meio da produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o da palavra fora dos limites do espa\u00e7o privado, n\u00e3o \u00e9 apenas possibilidade de participa\u00e7\u00e3o nos rumos de uma sociedade, mas \u00e9 tamb\u00e9m condi\u00e7\u00e3o para nossa integral exist\u00eancia humana. Por essa raz\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio e urgente identificar e denunciar as pr\u00e1ticas de silenciamento que negam \u00e0s mulheres uma efetiva exist\u00eancia social e pol\u00edtica. Conhecer as tentativas da domina\u00e7\u00e3o masculina de calar as mulheres, bem como as lutas feministas pela escuta de suas palavras, \u00e9 um passo decisivo para resistir a uma das mais prim\u00e1rias, mais potentes e mais opressoras rela\u00e7\u00f5es de poder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BRAGA, Amanda; PIOVEZANI, Carlos. <em>A fala feminina<\/em>: silenciamentos e resist\u00eancias (do Mundo antigo ao Brasil contempor\u00e2neo). S\u00e3o Paulo: Janda\u00edra, 2025. <a href=\"https:\/\/www.editorajandaira.com.br\/humanidades\/a-fala-feminina-silenciamentos-e-resistencias\">https:\/\/www.editorajandaira.com.br\/humanidades\/a-fala-feminina-silenciamentos-e-resistencias<\/a><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Amanda Braga<\/strong> \u00e9 professora da UFPB, pesquisadora do CNPq e coordenadora do <em>Observat\u00f3rio do Discurso<\/em> (UFPB\/ CNPq). Suas pesquisas tratam de silenciamentos e resist\u00eancias na hist\u00f3ria da fala p\u00fablica das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Carlos Piovezani<\/strong> \u00e9 professor da UFSCar, pesquisador do CNPq e coordenador do <em>Laborat\u00f3rio de Estudos do Discurso<\/em> (UFSCar\/ CNPq). Suas pesquisas tratam do discurso pol\u00edtico e da hist\u00f3ria da fala p\u00fablica. Foi professor convidado na EHESS\/Paris e professor visitante na Universidade de Buenos Aires.<\/p>\n\n\n<figure class=\"wp-block-post-featured-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"568\" src=\"https:\/\/www.cchla.ufpb.br\/observatoriododiscurso\/wp-content\/uploads\/sites\/122\/sites\/328\/2025\/08\/3-e1755355385488.png\" class=\"attachment-post-thumbnail size-post-thumbnail wp-post-image\" alt=\"\" style=\"object-fit:cover;\" \/><\/figure>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amanda Braga | Carlos Piovezani Texto originalmente publicado em: Observat\u00f3rio da imprensa, ed. 1345, 03 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":344,"featured_media":674,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[4,3],"class_list":["post-320","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-fala-feminina","tag-publicacoes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cchla.ufpb.br\/observatoriododiscurso\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/320","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cchla.ufpb.br\/observatoriododiscurso\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cchla.ufpb.br\/observatoriododiscurso\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cchla.ufpb.br\/observatoriododiscurso\/wp-json\/wp\/v2\/users\/344"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cchla.ufpb.br\/observatoriododiscurso\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=320"}],"version-history":[{"count":19,"href":"https:\/\/www.cchla.ufpb.br\/observatoriododiscurso\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/320\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":701,"href":"https:\/\/www.cchla.ufpb.br\/observatoriododiscurso\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/320\/revisions\/701"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cchla.ufpb.br\/observatoriododiscurso\/wp-json\/wp\/v2\/media\/674"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cchla.ufpb.br\/observatoriododiscurso\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=320"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cchla.ufpb.br\/observatoriododiscurso\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=320"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cchla.ufpb.br\/observatoriododiscurso\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=320"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}