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Tereza Correia da Nóbrega Queiroz

Juventude, Educação e Memória

Vivemos uma época desmemoriada.

O que faz pessoas que viveram uma ditadura militar saírem as ruas com cartazes, demandando a volta dos militares ao poder? É uma atitude reveladora da distância em que estamos da construção de uma cultura política verdadeiramente democrática. Outro sintoma desta carência é o desejo de destruição do outro, de negação de quem pensa diferente, de quem age diferentemente do modelo considerado por alguns como “normal”. A ausência dessa cultura se traduz em flagrantes e graves desrespeito aos direitos humanos de negros, homossexuais, mulheres, pobres, moradores de rua. Em intolerâncias e agressões no facebook ou nas ruas como aconteceu com a atriz Letícia Sabatella. Portanto a pergunta sobre quanto da ditadura ainda está presente entre nós é pertinente no cenário atual da sociedade brasileira.

A nossa história é rica de exemplos de transições construídas pelo alto, pela cúpula de partidos e representantes de grupos hegemónicos. Foi assim com a transição da ditadura para o estado democrático de direitos em meados dos anos 80. Ao clamor das ruas pelas eleições diretas, nossos representantes fizeram uma conciliação pelo alto, organizando uma eleição indireta e relegando ao silêncio os crimes da ditadura e o debate sobre as violências institucionais. E foi preciso muito esforço para que se instalassem processos como o das comissões da verdade que se debruçaram sobre as histórias dos mortos pela ditadura, dos que sofreram torturas e violências de toda ordem, para tornar efetivo um direito humano fundamental que é o direito humano à memória e à verdade.

Este esquecimento, que foi recalcado, está na base de muitas das atuais demandas por aprofundamento da democracia, mas também por demandas autoritárias e anti-democráticas, de cerceamento de direitos e de controle sobre a liberdade de opinião. E precisamos encontrar saídas para reverter estas últimas e consolidar no país uma cultura efetivamente democrática que vá além da vigência das instituições políticas, consolidando-se também enquanto uma democracia social, uma democracia que se incorpore a nossas vivências cotidianas, ao nosso trato com os outros.

Nossa persistente desigualdade social é uma expressão gritante dos limites de nossa democracia incipiente. Nossas supostas saídas para as crises recaem sempre sobre os mais pobres, como se fosse a única alternativa possível para superá-las.

O educador tem um papel fundamental na caminhada pelo aprofundamento da democracia. Ao contrário dos defensores da escola sem partido, que pretendem “educar” um jovem incapaz de autonomia, de pensar pela própria cabeça, ele tem a tarefa de formar os jovens para o exercício de uma cidadania ativa, para a autonomia, para a capacidade de pensar e decidir por si mesmo.

Nesse sentido, é necessário situar o jovem em seu contexto contemporâneo, a sociedade da informação onde as tecnologias marcam de forma significativa a vida social de todos, mas em especial dos jovens. Que é também a sociedade da precarização do trabalho e da incerteza quanto aos projetos de futuro. Da crescente e invasiva mercantilização da vida, do apelo ao consumo como expressão máxima das subjetividades.

No mundo globalizado as novas formas de territorialização e de elaboração de identidades desarrumam as antigas identidades mais centrados no local, no regional, e relativamente mais estáveis. Hoje, os jovens precisam construir seu lugar no mundo, gerenciar suas identidades num mundo de múltiplas influências. Precisa, portanto, de referências de sua história e de seu passado, para inventar outras identidades sem descaracterizar-se. A cena musical e outras expressões culturais juvenis exemplificam esse esforço de reconfiguração identitária, ao articularem de forma inovadora elementos de nossas culturas tradicionais com estilos contemporâneos de fazer música.

O controle da informação pelas grandes empresas de comunicação pode ser contrastado hoje pela contra informação dos blogs e das redes sociais. É possível conectar pessoas de diferentes localidades e formações. Este é um espaço inédito de experimentação de novas práticas e possibilidades, e constitui um outro espaço público a ser disputado e ocupado. Nele encontramos também amplas possibilidades de reinventar o futuro e as utopias.

A escola precisa entender esse novo contexto e atuar de forma criativa na educação dos jovens. O que inclui levar em consideração a sociedade globalizada e seus aspectos uniformizadores, mas também nossas origens históricas, nosso passado que nos constituiu até o presente, a cultura que produzimos. E pensar a formação em seu sentido amplo, não só no sentido instrumental de formação profissional, para ser capaz de conseguir seus amplos objetivos onde o mais expressivo é o de contribuir para a formação de sujeitos com capacidade crítica, capazes de atuar na construção de um mundo mais igualitário e solidário.

A proposta do livro Direito à Memória e a Verdade, é uma iniciativa que contribui para estes objetivos. Sua finalidade é apoiar professores e demais educadores no desenvolvimento de práticas pedagógicas que favoreçam nossos jovens a se apropriarem das memórias e das histórias dos que foram silenciados, dos que são considerados perdedores na nossa história.

As memórias de pessoas que foram torturadas ou mortas precisam ser conhecidas para que, nunca é demais insistir, a história não se repita.

As memórias dos que nos antecederam e que foram silenciadas e condenadas ao silencio precisa ser revisitada e apropriada pela escola pela contribuição que pode dar à formação dos jovens. Através delas é possível conhecer a diversidade de caminhos possíveis cujos rastros foram apagados, as possibilidades históricas que foram abortadas e violentadas, a multiplicidade de facetas do passado que nem sempre ou quase nunca são incluídas na narrativa da história oficial. Conhecer os relatos dos que vivenciaram determinados acontecimentos ou os relatos de familiares de mortos e desaparecidos pela violência dos regimes ditatoriais torna possível questionar o presente e abrir novas perspectivas de futuro. O exame das memórias, ao expor a diversidade que constitui o tecido da vida social, representa um antídoto contra tendências totalitárias que aprisionam narrativas presentes ou passadas em impossíveis consensos.

O livro apresentado traz sugestões metodológicas variadas para o uso das memórias pelos educadores. Apresenta e convida a visitação de lugares de memórias que permitem uma aproximação cognitiva e sensorial a pessoas e acontecimentos pretéritos, nem sempre presentes na história oficial. Informa também sobre as possibilidades de acesso aos arquivos com memórias do período ditatorial, onde é possível encontrar um rico acervo sobre os silenciados da história nacional. E inúmeras sugestões de práticas docentes que remetem ao exame e discussão sobre memórias e podem inspirar outras atividades, contribuindo para o necessário exercício da criatividade no dia a dia de educadores e alunos.

Parabenizo as autoras pela iniciativa e convido educadores e alunos para utilizarem o material em suas atividades e a criarem outras tantas sugestões pedagógicas.

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Comentários sobre o livro publicado pelo NCDH:

FERREIRA, Lúcia de Fátima Guerra; ZENAIDE, Maria de Nazaré Tavares; MELO, Vilma de Lurdes Barbosa e. Direito à Memória e à Verdade: Saberes e práticas docentes. João Pessoa: Editora do CCTA, 2016. 194p.