Da visibilidade à transformação social

 Ângelo Emílio da Silva Pessoa (Departamento de História da UFPB)

 

ÂngeloTalvez a melhor função de um trabalhador intelectual que se pensa solidário a algum movimento social – e a palavra social aqui não está colocada gratuita nem casualmente – seja a de estabelecer algum apoio crítico (e não incondicional), que aponte eventuais problemas e sugira alguns elementos para a reflexão, que é uma condição necessária para uma ação efetivamente transformadora dessa mesma sociedade. Poderá se questionar com alguma boa dose de razão: por que alguém que não sofre exatamente na pele esses problemas, tem direito de dar algum “pitaco” sobre aquilo que não é da sua conta? Exatamente por não sofrê-los diretamente na pele, talvez isso possibilite obter uma sensibilidade/percepção particular para essas questões e apontar dimensões não percebidas numa outra condição, mais ou menos como: quem está de fora, vê diferente. Enfim, todo o apoio crítico merece ser igualmente criticado e o próprio exercício da contradição pode nos permitir afiar os argumentos intelectuais, aporte mais que necessário ao bom encaminhamento das boas lutas.

                Parto de uma constatação que pode/deve ser errônea – e que inviabilizará todo o restante –, mas que pode ter algum grau de plausibilidade e contribua para entreabrir toda uma zona de reflexão/ação. Indo direto ao ponto, penso que as políticas de ações afirmativas, principalmente de bem sucedidos movimentos negros e homossexuais (abarcando uma grande diversidade de condições), realizadas num crescendo desde a década de 1990, têm efetivamente atingido um de seus objetivos mais caros, que é a questão da visibilidade de uma série de discriminações/repressões que estariam invisíveis na nossa sociedade, ou seja, o racismo e a homofobia seriam componentes estruturais e ocultos de nossa teia social e seria necessário trazer esses discursos e práticas à luz do dia para ser possível combatê-los efetivamente (não deixando de esquecer que essa paleta de horrores reúne ainda outras tintas tão fortes quanto o machismo e outras práticas que chamaremos de “nefandas” (que não devem ser ditas), bem ao gosto do linguajar do Santo Ofício da Inquisição). Não resta dúvida que o noticiário nos vomita dia a dia uma série generalizada de situações que deixam às claras os paroxismos de racismo e homofobia que sacodem nossa sociedade; se se desejava tornar visíveis esses problemas, parece que o objetivo foi em larga medida atingido e essas perversões ocultas vieram se explicitar na cena pública.

                Essencialmente, atacaram-se as bases de nossas ideologias integrativas/agregadoras, que pretendiam interpretar nossa ordem social como dotada de uma grande plasticidade para absorver suas próprias contradições e resolvê-las de modo singular num grande oceano de malemolência e afetividade (e doses maciças de sadomasoquismo Brasil varonil afora). Talvez, sua expressão mais bem acabada e intelectualmente eficaz esteja num autor muito condenado e, lamentavelmente, pouco lido (e combatido equivocadamente de maneira simplista e insuficiente), Gilberto Freyre. Freyre tem como diapasão fundamental não uma pueril ideologia da democracia racial – que pode ser derrubada com um piparote fraseológico ou com um arroubo de slogan – mas uma sofisticadíssima percepção daquilo que denomina equilíbrio de antagonismos, que seria uma engenhosa capacidade social/cultural brasileira de sublimar os intensos antagonismos que sacodem nossa sociedade, de criar uma zona de confraternização, indistinção, penumbra e quase total invisibilidade que elide esses antagonismos para uma dimensão oculta, que permite que os mesmos se resolvam sem desagregar o tecido dessa singular sociabilidade. O seu corolário quase necessário seria que, dada essa possibilidade de equilibrar esses antagonismos nas “alcovas sociais”, cada um “saberia o seu lugar”, por introjeção de regras implícitas, e seria possível manter um discreto status quo, sem ser necessário tornar muito explícitas e formalizadas as regras de dominação/discriminação/repressão. Tudo se resolveria numa democracia racial, onde a violência seria apanágio de indivíduos torpes, não de toda uma sociedade encoberta pelo manto da afetividade que nos garantia que o brasileiro era bonzinho e a empregada era “quase da família”. Seria assim como seresolvêssemos na “casa” aquilo que não deveria ir à “rua”. No bipolo homem/branco/heterossexual, estaria a mulher/negra/homossexual e cada qual saberia de antemão qual o seu papel. Mostrar que existia realmente racismo e homofobia, por baixo dessa capa de docilidade, seria uma missão essencial para enfrentar e superar esse “atavismo nacional”.

                Se os movimentos de ações afirmativas permitem elevar indivíduos de segmentos sociais anteriormente excluídos à proa da sociedade (mesmo que ainda amplamente minoritários), têm como subproduto trazer à tona aquilo que denunciam: o caráter racista e homofóbico dessa sociedade, antes introjetado e agora explicitado. Nada a estranhar, então, com as explícitas e horrendas manifestações daqueles que subjetivaramo ethos do mando e, agora, se sentem desafiados e desautorizados em casa e na rua pela intensa visibilidade do que estava encoberto e vem se mostrar à luz do sol. Nada a estranhar – e tudo a repudiar – com o comportamento de gente que faz questão de estacionar seu carro possante em duas vagas como desafio explícito ao espaço público. Outro intelectual de porte, Sérgio Buarque de Holanda, já tinha nos alertado sobre esse desapreço estrutural ao espaço público, o que podemos traduzir nos dias que correm, pelo desrespeito dos direitos do outro. Casos escabrosos se repetem e chegam às manchetes ou redes sociais, envolvendo desde o incômodo raivoso de sinhôs e sinhás com empregadas e pedreiros – não raro, afrodescendentes – viajando de avião, ou ainda de bons pais, mães e filhos de família revoltados com homoafetividades explicitadas, até o mais recente e absurdo caso da sinhá fortalezense que atacou verbalmente e por escrito dois trabalhadores que rebocaram seu carro estacionado irregularmente, dizendo a um deles que, graças à maldita Princesa Isabel (seria uma sublimada Isabel Rousseff?), ele não estava no tronco, que era o lugar que o mesmo merecia, não sem antes proferir toda a espécie de sortilégios de pragas e maldições que fizeram o inquisitorial século XVII falar pela sua boca.

Não houvesse isso, essa verdadeira explosão de nossos esgotos sociais/culturais, Freyre estaria redondamente certo. A luta pela afirmação não será ganha numa parada cívica na qual os desafetos de ontem baterão palmas para os novos heróis; desafiados e inseguros, os que se sentiam até ontem donos da casa (e da rua), partirão para tentar afirmar seus lugares, defender seus privilégios, provavelmente se tornarão mais raivosos e agressivos, mas isso os movimentos não devem temer ou estranhar. Devem enfrentar sem partirem para a “guetização”; devem falar para toda a sociedade, em vez de se encastelarem em pequenos grupos de solidariedade; devem estabelecer laços maiores de solidariedade e articulação, enfrentando efetivamente a sociedade de sinhôs e sinhás que gerou no mesmo ventre racismo, homofobia e todo o cortejo de horrores que não começam nem acabam aí. Se quiserem se tornar sinhôs e sinhás negros e/ou homossexuais numa “nova ordem”, a casa grande e o patriarcalismo terão saído vencedores, apenas incorporando mais alguns personagens privilegiados, que olharão sobranceiramente das varandas para aqueles que labutam duramente ao sol.

Ou seja, se o negócio era dar visibilidade ao que era antes invisível, agora a luta muda de patamar: é necessário encontrar uma forma efetiva (e social) de combater essas verdadeiras patogenias sociais, bem além da mera afirmação (necessária, mas não suficiente) de indivíduos afrodescendentes e homossexuais a lugares de proa de nossa sociedade. Trata-se de mudar as regras do jogo e não apenas de encontrar um nicho no jogo alheio. Bem além de travar ruidosas batalhas lingüísticas (dos que vêem ingenuamente as linguagens como constituintes e não como constitutivas das relações sociais), é necessária a coragem de mudar lugares sociais, ou mais, de mudar efetivamente a sociedade, e, aqui, sociedade não é mais um jogo de linguagem, é aquilo que paga as contas dos soldados da linguagem e que tem uma concretude bem real e, muitas vezes, dolorosa.

Numa das críticas mais pertinentes que já vi a Gilberto Freyre, Luís Felipe de Alencastro (A Pré-Revolução de 30. IN: Novos Estudos CEBRAP, nº 18, Set, 1987, p. 17-21) apontou cirurgicamente que o gênio de Apipucos só pôde criar sua engenhosa e sofisticada formulação elidindo do engenho/berço da nação os fluxos de comércio internacional, que tinham o tráfico de escravos numa ponta e a demanda de produtos agrícolas na outra. Ou seja, em bom e velho idioma sonante: só escondendo sorrateiramente as relações capitalistas, pôde Freyre mergulhar tudo num saboroso “caldeirão de cultura”. O historiador ainda apontou argutamente, ao final do referido artigo, que o livro ainda teria belos dias diante de si, como obra seminal da ideologia patriarcal. Todo o cuidado é pouco para que o patriarcalismo apenas não amplie sua plasticidade, em vez de ser efetivamente liquidado, como herança quase perene do nosso belo e saudoso passado.

Parece que, agora, mais que a visibilidade, é necessário apostar na transformação social efetiva, no custoso enfrentamento e desmonte de todo esse pesado ethos patriarcal que domina séculos de nossa sociedade e que resistirá tenazmente a qualquer mudança, ou cooptará os mais talentosos para o seu regaço (que terão sido como aqueles arrivistas que dizem ser contra o capitalismo – ou algo mais diáfano como “o sistema” – apenas por que não são burgueses, aderindo rapidamente tão logo encontrem alguma prebenda dando sopa). É necessária uma segunda onda de visibilidade, a visibilidade da necessidade de transformação social, pois a manutenção das redes de poder (às vezes obliteradas em engenhosos jogos de linguagens), que chamamos capitalismo e sociedades de classes, é que garantem a perpetuação de espécies diferentes de dominação/sujeição/discriminação/exploração, que aparecem modernamente em outras práticas igualmente nefandas como a agressão física e moral a mulheres, o horror patológico a pobres, a superexploração dos trabalhadores, a periculosa agressão/destruição socioambiental, enfim, essa dantesca paleta de cores fortes que tornam hediondos os cenários de nossas vidas coletivas. E não basta mudar/acrescentar os personagens da trama, é preciso destruir mesmo essa trama e contar uma outra história. Não criar um mundo de novos senhores, mas um mundo sem senhores.


 

 

O Nordeste dos Xenófobos e suas muitas Ignorâncias Históricas:

A primeira de todas: nunca existiu nem existe historicamente um Nordeste

 

Rosa Godoy – 16/11/2014

Leitores/Consultores: Maria de Fátima Rodrigues – Departamento de Geociências/UFPB

Ângelo Emílio da Silva Pessoa – Departamento de História/UFPB

Algumas das representações mais usuais das postagens xenófobas anti-Nordeste e (os) nordestinos, já desde a campanha eleitoral, e intensificadas após a eleição, foram:

  • Visão generalizada do território nordestino como lugar da miséria, da burrice e da ignorância;
  • Visão generalizada de um território onde as pessoas não trabalham, são vagabundas e vivem de Bolsas Família, pagas pelo Sul, Sudeste;
  • Lugar onde os pobres se reproduzem como ratos, fazendo filhos para serem sustentados sem trabalhar;
  • Lugar onde as pessoas vivem mamando nas tetas do Governo;
  • Povo que merece passar fome e seca/sede;
  • “esses nordestinos pardos, bugres, índios, acham que têm moral, cambada de feios”
  • E, culminando: “nordestino não é gente”.

Uma comunidade médica(!) chegou ao ponto de pregar o Holocausto no Nordeste, mediante castrações químicas [http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2014-10-07/comunidade-medica-prega-holocausto-no-nordeste-em-campanha-contra-dilma-na-web.html].

Esse caldo de cultura autoritária e preconceituosa contou até com a colaboração do doutor Fernando Henrique Cardoso, tentando auto-qualificar positivamente o voto tucano e desqualificar o PT. São os habitantes dos grotões os responsáveis pela ascensão do PT, pois segundo FHC, “O PT está fincado nos menos informados, que coincide de ser os mais pobres. Não é porque são pobres que apoiam o PT, é porque são menos informados”, afirmou o ex-presidente. [http://eleicoes.uol.com.br/2014/noticias/2014/10/06/fhc-pt-cresceu-nos-grotoes-porque-tem-voto-dos-pobres-menos-informados.htm]

Muitas pessoas assumiram explicitamente que são preconceituosas. Rogam até pragas: “que nunca mais chova no Nordeste”. E partem para a violência explícita: “esses nordestinos devem ser linchados e mortos”.

E a bandeira do separatismo é arvorada.

Por contraposição a essas representações, explícita ou implicitamente, o Sudeste-Sul é considerado nas representações xenófobas o território do desenvolvimento, o “sul-maravilha”, onde não há seca, lugar de pessoas trabalhadoras (não as nordestinas que aí moram, haja vista as mensagens da tal comunidade médica acima referida), de pessoas mais informadas, mais bonitas, não índios nem pardos nem negros.

Vamos, então, examinar cada uma dessas representações e apontar como expressam um profundo desconhecimento histórico sobre o Nordeste e o Brasil. Começaremos pela representação de que o Nordeste seria um único território – geralmente identificado pela sua porção de território semiárido, eterna “vítima das secas”, ignorando que, até na região na qual se verificam secas periódicas, se formam fortunas devido à concentração de terras, “indústria da seca”, articuladas aos interesses político-econômicos do “sul maravilha” – porque dela derivam (com modificações) as demais representações. Em artigos seguintes, iremos abordar as demais. Este artigo tem uma perspectiva diacrônica mais longa, os demais abordarão o tempo presente, com algumas incursões retrospectivas, quando necessárias.

Nunca existiu historicamente esse Nordeste homogêneo. Um Nordeste.  Assim como nunca existiu historicamente um Sul, um Sudeste, um Centro-Oeste e um Norte. Em cada uma dessas chamadas regiões, há uma enorme diversidade geográfica, histórica, econômica, demográfico-social, cultural. Vamos um pouco mais fundo: essa diversidade vale para cada um dos estados brasileiros. Mais fundo ainda: nem mesmo cada município é homogêneo. Vai, assim, a resposta para aquela sapientíssima parente da minha parenta que, advertida por um internauta que ela não conhecia o Nordeste, disse que conhecia porque … havia passado de carro por alguns lugares da Chapada Diamantina e tinha visto apenas “ruas” (a expressão é dela) cheias de miséria. Queria saber que capacidade de percepção é esta porque eu, que tive oportunidade de, profissionalmente, já ter estado em 21 dos 26 estados brasileiros, não conheço o Brasil. Eu conheço o Pará porque estive em Belém? Anos depois, quando passei por Carajás, em escala para Tocantins, posso dizer que conheço Carajás? Eu, que vivi 36 anos na Paraíba, não posso dizer que a conheço inteiramente.

Vale lembrar que a expressão Nordeste só aparece no imaginário social brasileiro por volta da década de 1910 em diante. Antes disso, havia a expressão Norte, que, desde aproximadamente a década de 1830, designava a maneira como era visto o território da Bahia ao Amazonas. E antes disso ainda, quando aparecem as primeiras percepções sobre os vários territórios do Brasil, usava-se a expressão pátrias locais para designar aquelas partes/lugares que correspondiam, grosso modo, aos territórios das capitanias, depois províncias com a separação política do Brasil.

Essas diferentes percepções/representações são modos de expressar as vivências históricas e tanto são elaboradas por instituições e grupos sociais (Estado, elites políticas, jornalistas, literatos, segmentos populares etc) de dentro de um território quanto de fora dele. Significam tanto uma auto-percepção desses grupos quanto uma alter-percepção, a visão que têm do Outro e a visão que o Outro tem deles (nesse caso, esse Outro passa a ser o Eu do discurso). Este é o jogo das identidades, como assinalamos no primeiro artigo.Portanto, as percepções/representações são sistemas de classificação e (dês)qualificação. Tais percepções podem mudar conforme os contextos históricos, mas os esquemas mentais constituem aquilo que os historiadores chamam “tempo lento” da História, aqueles mais sujeitos a permanências, por contraste a mudanças materiais: para ser mais explícita, podemos construir uma barragem em poucos anos, mas mudar a mentalidade implica em décadas e até séculos, haja vista, por exemplo, a permanência da mentalidade escravocrata em muitos segmentos da sociedade brasileira.

A representação Norte, quando começou a circular no imaginário social, tinha uma tessitura econômico-social identificável e identificadora: um território que, devido ao processo histórico de modernização no país, na 2ª metade do século XIX, estava configurado pela crise açucareira,  depois a algodoeira, acrescida da famosa grande seca de 1877-1879; e que contrastava, por este mesmo processo, com o território chamado  Sul, em que florescia a  economia cafeeira, produto do qual o Brasil vai deter o monopólio mundial até o fim do século.

A representação Nordeste parece (parece, porque faltam pesquisas mais profundas a respeito) ter sido desblocada da expressão Norte a partir da configuração da região da borracha na Amazônia. Continuou a ser uma representação de crise, então mais acentuada com a industrialização em São Paulo e Rio de Janeiro, notadamente (e não na região Sudeste e Sul como um todo), da qual faz parte o deslocamento (e, portanto,perda) de parte da população nordestina para as áreas industrializadas, assim como já houvera anteriormente deslocamentos demográficos de escravos da região açucareira “nordestina” para a área mineradora (século XVIII), a cafeeira (século XIX) e a da borracha (fim do século XIX e início do século XX). É nesse contexto que o discurso sobre o Nordeste pobre ganha evidência e fornece às elites de lá e de cá a matéria-prima para suas articulações, que se expressam em acordos e votações de matérias no Congresso Nacional e que revelam, acima de tudo, interesses de classe e não interesses regionais.

No jogo simbólico das representações sociais, que significa jogo de disputa de poder, o Estado é um dos participantes. Assim, o Estado brasileiro republicano, para consolidar o regime recém-proclamado mediante a formulação da imagem de uma “nação brasileira”, com aplicação concreta no ensino de Geografia, organizou, em 1913, a primeira divisão do território brasileiro em “cinco Brasis”, baseada em critérios físicos e em alguns aspectos sócio-econômicos.  Várias classificações foram estudadas, segundo critérios diversos, [conforme pode ser observado em estudo clássico publicado pela Revista Brasileira de Geografia, de autoria de Fábio Guimarães] até que, durante a ditadura varguista, foi criado o IBGE em 1937, e concretizada uma primeira classificação regional do Brasil para melhor controle do Estado, mapeando a população, os recursos naturais e a economia, para fins de integração dos vários territórios do país e promoção de políticas públicas, no âmbito do projeto estatal nacional-desenvolvimentista, então em processo de configuração. Essa classificação, datada de 1942, baseou-se em critérios naturais (clima, relevo, vegetação e hidrografia): Norte (Território do Acre, Território do Guaporé, Território do Rio Branco, AM, PA, AP); Nordeste (MA, PI, CE, RN, PB, PE, AL); Leste (SE, BA, MG, ES, RJ; Centro-oeste (MT, GO); Sul (SP, PR, SC, RS). Várias outras regionalizações foram efetuadas desde então, com modificações na nomenclatura de algumas regiões e da dimensão de cada uma, mas a representação denominada “Nordeste” permaneceu em todas, passando o seu território a incluir a Bahia e Sergipe, estados desblocados da região Leste, a partir de 1970. Desaparece a representação denominada de “região Leste”, substituída pela representação denominada “região Sudeste”, compreendendo a configuração atual (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo), portanto São Paulo sendo desblocado da representação denominada “região Sul”. Houve outros desblocamentos nas outras representações regionais, mas não vêm ao caso para esse debate.

Portanto, são sistemas classificatórios que mudam conforme os critérios adotados. Por exemplo, o Polígono das Secas é uma outra classificação, que inclui a parte norte de Minas Gerais. Por serem oficiais do Estado brasileiro, essas nomenclaturas foram sendo incorporadas nos sistemas escolares e, em especial, na mídia impressa, radiofônica e televisiva, e configuradas com outras representações dos vários grupos sociais em disputa do poder simbólico-material. E, assim, foram moldando as mentes da população brasileira.

Para concluir, nenhuma dessas classificações oficiais corresponde à formação geo-histórica do território brasileiro porque são homogeneizantes e não dão conta das profundas diversidades internas a cada dita região. Mais do que isso, tais classificações ainda guardam uma forte marca naturalista-positivista, ignorando os conhecimentos geográficos e históricos disponíveis em nossa sociedade.

É notório que as vivências concretas são muito mais do que essas representações apontam.

A divisão do Brasil em regiões administrativas pode viabilizar o planejamento de ações, programas e políticas públicas por parte do Estado brasileiro, o que tem demorado a ocorrer e, mesmo agora, quando diversas políticas públicas se articulam, essa divisão regional demanda reformulação. Os territórios da cidadania propostos no governo Lula abrem novas perspectivas nesse sentido, buscando integrar políticas públicas em diferentes áreas e possibilitando a troca de experiências e de bens culturais entre territórios similares. Contudo, é preciso tirarmos as mordaças impostas por proposições classificatórias inspiradas em referenciais teórico-metodológicos de base naturalistas, raciais e positivistas para ensejar regionalizações que expressem as demandas da sociedade brasileira. É a valorização de territórios em suas peculiaridades que deve servir de substrato aos debates políticos.

A problemática das classificações regionais precisa avançar nos movimentos sociais, em cujas pautas políticas quase não tem constado. Devido às formas diversificadas de violências materiais e simbólicas impostas à sociedade brasileira, ao longo da sua história, outras bandeiras têm sido priorizadas, que dizem respeito à sobrevivência de etnias e grupos sociais. Os territórios da cidadania poderão recompor e atualizar questões históricas, políticas e socioculturais acumuladas do passado se forem apropriados pela sociedade brasileira na perspectiva enfrentar problemas que estão no âmago de seu processo formativo e que têm sido relegados sistematicamente. Mas eles estão aí, vivos, latentes, e, na presente conjuntura, explodindo, a exemplo dos discursos e atitudes xenófobos.

Conforme buscaremos especificar em suas várias dimensões nos próximos artigos.

Para finalizar, meus enormes agradecimentos a Fátima e Ângelo pelos comentários e sugestões.

 

 

 


 

 

Xenofobia

Rosa Godoy – 5/11/2014

rosaEsse pequeno texto é uma introdução ao tema. Pretendemos retomar os aspectos aqui colocados em textos subsequentes.

Resolvi elaborar uma série de pequenos artigos sobre a xenofobia antinordestina pós-eleitoral por obrigação profissional e moral.

Profissional porque sou professora de História e, em particular, de História do Brasil, desde os 18 anos de idade. Ainda nesse campo, porque, durante muitos anos, estudei o regionalismo nordestino. Moral porque, sendo estudiosa, professora e militante dos Direitos Humanos, não posso compactuar com preconceitos, segregações, desqualificações, de pessoas contra pessoas.

E o assustador é o que essa atitude odienta e preconceituosa revela de desestorização, ou falando mais claramente, de ignorância histórica.

O que configura a Xenofobia?

Imediatamente após os resultados eleitorais, começaram os ataques a nordestinos e escreveu-se no Facebook (e em outras redes) até em linchá-los.  Crime de ódio que foi e está sendo imediatamente denunciado às autoridades competentes pela OAB e por dezenas e dezenas de internautas. O paroxismo foi tanto que houve um determinado promotor público (!) que reiterou essas vociferações e foi advertido em pleno Facebook por sua mulher delegada que parasse com isso.  Ela sabe que é crime. Não vou citar nomes porque a figura é parente de parente meu e não pretendo abalar relações familiares da pessoa minha parente, embora ela  esteja indignada com  a atitude do nobre promotor.

Tais manifestações se configuram como xenofobia.

Xenofobia (do grego ξένος, translit. xénos: “estranho”; e φόβος, translit. phóbos: “medo.”) significa medo, aversão ou profunda antipatia a estrangeiros  ou a estranhos, ao que e/ou a quem é de fora de um país ou de um determinado grupo social ou de uma cultura, é uma reação do endogrupo ao exogrupo no jogo de reconhecimento, defesa e/ou preservação de identidades sociais (nacionais, grupais, étnico-culturais etc.).  Compreende as relações e as percepções do endogrupo em relação ao exogrupo, podendo abranger medo, suspeição, e extremar-se em agressão e desejo de extermínio do Outro. Engendra estereótipos desqualificadores do Outro e pode transformar-se em patologia individual e/ou coletiva, afetando os relacionamentos sociais.

A xenofobia, porque baseada no medo, não se fundamenta no conhecimento. Fundamenta-se no emocionalismo e não nas emoções ou sensibilidades. Fundamenta-se na irracionalidade e não na razão, a não ser que chamássemos de razão a sua visão estreita de mundo, que recusa a convivência na alteridade.

Começo pela visão maniqueísta do ataque xenófobo. No caso, pessoas do Sul/Sudeste contra (os) nordestinos (algumas generalizadoras, outras não). Um determinado grupo de autores e autoras dessas mensagens se arvorando portadores do Bem (porque eleitores de Aécio ou anti Dilma) contra os portadores do Mal (os eleitores de Dilma), que estaria(m) – o Mal e os eleitores – localizado(s) em uma região do país- o Nordeste – e os nela habitantes ou nascidos.

Tais mensagens odientas têm, por vezes, uma conotação religiosa e moralista, arrogando-se seus autores como donos da verdade (que, na visão deles, é única) e antiética porque um dos princípios centrais da Ética é o respeito à dignidade de toda pessoa.  Muito interessante de analisar isso porque várias dessas pessoas, com certeza, frequentam igrejas, vão a celebrações religiosas, como conheço vários casos, e pregam o ódio.

Essas pessoas tentaram construir aquilo que se chama bode expiatório. No caso, tentaram encontrar um bode expiatório para a derrota de seu candidato: o Nordeste (uma imagem estereotipada deste) e (os) nordestinos.  Isso aconteceu e acontece, ao longo da História, quando determinados grupos sociais se sentem ameaçados por mudanças históricas e encontram um “inimigo” para questões que não conseguem (ou não querem) compreender. Os judeus, tanto no período da Inquisição quanto durante o regime nazista, foram o bode expiatório da crise alemã depois da derrota do II Reich na 1ª Guerra Mundial.  Os negros têm sido bode expiatório de grupos brancos, de forma constante, na história mundial e brasileira. As mulheres o foram e são, os homossexuais foram também no nazismo e estão sendo na sociedade brasileira. Os grupos que se arrogam a verdade única, consideram-se superiores ou porque são escolarizados, mais bem dotados, mais inteligentes, se auto considerando mais civilizados.

O que tais grupos odientos não conseguem compreender é, nos mais variados períodos e contextos históricos, a presença do Outro. O Outro incomoda. Como diz a música de Caetano Veloso, “é que Narciso acha feio o que não é espelho”. No caso, Narciso se acha bonito porque é branco, com razoável situação financeira, heterossexual, descendente de europeu (de preferência, não português), cristão.  Esse Outro quer falar, quer participar e, mais do que isso, quer ter direitos. Mas o Mesmo, o Eu do discurso dono da verdade, considera que os direitos são só para si. Não para o Outro.  Então, joga o jogo da Identidade do Eu, do Mesmo, do “Nós” contra o Outro, o diferente, o diverso.

Esses grupos que se postulam donos da verdade, da sabedoria, da inteligência, vão mais longe: no caso da xenofobia antinordestina, atribuem ao Outro (eleitores de Dilma/ nordestinos/ pobres) terem votado por interesse, e, em específico, nominaram o interesse pela Bolsa Família. Primeiramente, o “argumento” é risível: isto quer dizer que 24 milhões de pessoas do Norte e Nordeste que votaram em Dilma, têm Bolsa Família? Isto quer dizer que 26 milhões de pessoas do Sul e Sudeste que votaram em Dilma, têm Bolsa Família? Esse discurso seria até risível se não ocultasse algo muito sério: tentar desqualificar o Outro em sua legitimidade de ter interesses no processo eleitoral, passando uma imagem do Eu do discurso como desinteressado e votando sem interesse algum. Lançam seus anátemas (sim, porque esses grupos se julgam juízes da vida do Outro) e se calam sobre seus próprios interesses e sobre os interesses dos grandes grupos que financiam as campanhas eleitorais, aliás, de vários candidatos ao mesmo tempo. Abordarei essa questão com mais detalhes em outro artigo.

Vale lembrar alguns outros episódios correlacionados:

  • As atitudes odientas não foram apanágio apenas de eleitores aecistas. Aconteceram de vários lados. Mas foram visivelmente mais intensas contra o Nordeste e (os) nordestinos;
  • Essas atitudes já haviam acontecido em 2010, também contra o Nordeste e (os) nordestinos;
  • Essas atitudes haviam acontecido muito mais tempo antes já na campanha eleitoral de 1989, contra Lula, sob a capa de uma Imaginária “ameaça comunista”

Não considero tais episódios apenas conjunturais e passageiros.  São pontas de um iceberg de intolerância de uma sociedade que foi constituída historicamente com uma profunda mentalidade autoritária.

O jogo discursivo manipula a História. Oculta as Histórias: porque não há uma História única. Promove a desestorização e, portanto, a deseducação política.

Mas não representa apenas violência simbólica. Pode converter-se em violência concreta, física. Na eleição de 1989, em São Paulo, um casal jogou um cachorro para cima de uma amiga minha, professora da UFPB, e de seu marido, por estarem andando na rua com camisa do PT.

Pode converter-se, inclusive, como aconteceu na semana seguinte à eleição, em manifestações pela ditadura, pela ruptura do Estado de Direito.